Pessoas que sentem muito
Eu sinto muito. Não da maneira que eles sentem muito nos
filmes dublados. Eu sinto muito de uma maneira exacerbada de sentir,
de experimentar um sentimento. Uma maneira que toma conta de todo o meu ser. Eu
sinto os cheiros, as cores, as dores. Eu sinto o vento, e eu sinto o grito. A
glória e o sufoco. O desapontamento, e a frustração – esses eu sinto mais
ainda. Eu sinto a vergonha e a cobrança como você nunca vai sentir. Eu sinto a
alegria, a euforia, e a sensação de que naquele momento, e para sempre, nada de
ruim vou sentir. Nunca mais. Eu tenho muita energia mas ela não é sinérgica.
Ela sobe para a minha cabeça, tem barreira na garganta e fica presa no torso. E
ali explode – ou deveria. Essa energia não me faz mas ativo, mas me paralisa.
Faz-me pensar em tudo que eu posso ou poderia fazer se eu tivesse tempo para
parar de pensar e fazer. É energia acumulada, rejeitada e empilhada. Não
ordenadamente, mas tudo junto, no canto, em cima, e por todos os lados. Lateja.
Uma pira de anfetamina, dizem, te faz sentir mais as coisas.
É sensorial e te torna mais alerta a tudo. Imagino que, se eu tivesse esse tipo
de coisa no meu organismo, com tudo que já sinto, eu piraria. Na pira, eu
piraria.
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