Ode aos olhos de ressaca
À procura de algo que despertasse em mim a inveja instantânea de seu autor, encaminhei-me para a estante de livros. A busca nem precisou ser tão ferrenha para uma resposta aparecer: trazia em si a essência da dissimulação. Sua narrativa em muito se aproximava de uma argumentação pela carga de imparcialidade que carrega.
Dom Casmurro foi um menino. Nasceu, cresceu e morreu um menino. A mímese fez com que ele, ao passar dos anos, tomasse feições de homem. Porém homem pleno nunca foi. Sabia latim, “conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar”.
Bentinho cresceu dentro de um molde de pensamento e conduta, e desse molde não fez questão alguma de se libertar. Foi-lhe ensinado o que era direito e o que não era. Foram-lhe ensinados todos os segredos da vida. De uma vida limitada.
É uma tarefa incrivelmente fácil enxergar por aí diversas variações de Bentinhos. Bentinhos se chocam muito facilmente, apontam dedos e julgam num piscar de olhos. Eles se protegem contra o errado, o sujo, o condenável. Mas acima de tudo morrem de medo do que não entendem. Sua essência medrosa torna-os, na maioria das vezes, incapazes de se tornarem protagonistas. Fadados a papéis secundários, nunca irão deixar uma marca no mundo.
Percebo agora que Machado de Assis nessa obra - e em muitas outras – rouba-me o chão através de sua genialidade. A apaixonante liberdade presenteada ao leitor para que tome suas próprias conclusões é de uma coragem e generosidade que nunca serei capaz de compreender. Porém, em Dom Casmurro, esse arrebatamento acontece de forma extraordinária. A história é repleta de inebriante simbolismo e impecável caracterização.
A ideia de que eu seria uma pessoa muito mais completa se fosse o responsável por dar vida a Capitu ecoa em minha mente toda vez que penso a respeito. Mas isso passa. Por fim, contento-me com a sua existência. Fecho o livro e me alegro com a possibilidade de travestir sua narrativa do jeito que mais me apetece.
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