Tommas in Disgraceland.

Tom acordou atrasado como sempre. Penteou caprichosamente os cabelos e saiu de pijama e tudo para a aula, afinal causaria a maior inveja e comoção geral ao trajar suas novas pantufas em forma de estrela. Andava rápido e apressado, segurando seus cadernos e livros com a maior atenção que podia. Afinal, a atenção dispensada aos seus amores e desamores tinha que ser voltada para algum lugar.
Andava bem depressa, num ritmo frenético. Então caiu. “Droga, de novo não!”, pensou. Caiu o suficiente para derrubar todos os seus livros – era a desculpa que admitiria de agora em diante: “a queda, foi muito ríspida, como esperavas que eu segurasse tudo?!” Mas a verdade (bem verdadeira) era que ele só estava esperava uma oportunidade qualquer para perder tudo.
Logo que o processo chato e deprimente da queda passou, ele se levantou. Estava no mesmo lugar. Era um buraco que só o atrasava. Ele caía por alguns dias (às vezes empurrado por um infeliz qualquer) e voltava ao mesmo lugar. Atraso de vida, era o que era.
Então ele levantou - feliz por ainda ter sua bela e aconchegante pantufa consigo - e continou caminhando. No caminho viu uma casa um com portão amarelo escancarado. Entrou pelo simples motivo de não conseguir pensar em um motivo para não fazê-lo, já tinha perdido o horário mesmo.
Dentro da casa (que era constituída apenas por uma cozinha) pode ver um grupo de amigos tomando café da manhã. Sentiu-se tão feliz por ter chego bem na hora de sua refeição favorita que não pode evitar se sentar a mesa para comer um pão de queijo. Enquanto degustava reparou que no canto do aposento havia um sofá preto de couro com dois jovens: uma menina muito bonita do cabelo liso e comprido (pela qual ele sentia um afeto fraternal inexplicável) e um garoto muito magro do cabelo tão liso quanto da garota (por este sentia somente asco), porém com comprimento até o queixo somente. O garoto olhava para ela esquisitamente, parecia que a qualquer momento comeria um pedaço de sua bochecha. Ela de nada correspondia, só olhava para suas unhas. Neste momento porém os dois levantaram o olhar para Tom, que, não hesitou até que percebeu a expressão de eu-consigo-me-virar que no rosto da menina. Decidiu então que essa era uma a menos para de ser salva (afinal de contas havia três garotas de pés em ambas as laterais do sofá. Apesar de as três [a loira, a morena e a oriental] possuírem um olhar inexpressivo Tom podia apostar que elas protegeriam a garota bonita se precisasse.)
Após engolir e digerir o pão de queijo achou que talvez fosse hora de olhar e analisar o que acontecia a sua volta. Correu os olhos e viu três pessoas em volta da mesa. Um rapaz de cabelo castanho e muito bem vestido – que lhe causou certa inveja e o fez questionar pela primeira vez se seu pijama azul era traje adequado para a situação – que encarava com cara de pena e ao mesmo tempo humor e agonia outro muito mais alto e loiro. Este, por sua vez tinha sua boca aberta e uma fatia de pão com pó de capuccino instantâneo salpicado por cima segura no ar, a meio caminho da boca. Seus olhos azuis fitavam, arregalados como se tivesse vendo uma aparição a terceira pessoa na mesa: era uma garota. Não tão bonita quanto à do sofá, mas muito mais encantadora. Tom a amava.
- Meu nome é Larissa. – Ela se dirigia a Tom sorrindo.
- Tommas, o sozinho. – Ele sorriu da piada que acabara de proferir esperando pela reação da garota que fechou a cara para ele. – É como se fosse uma alcunha, sabe...
- Sei, claro que sei! Não sou ignorante. Aliás, se tem alguém realmente estúpido nessa sala é você. – E dizendo isso provocou uma exclamação de ofensa da bela garota do sofá. – Você também é bem estúpida, se acalme.
- Ora se isso não é uma ofensa já não sei o que é! – E Tommas se levantou pegando um guardanapo de pano somente para atirar na mesa. O impacto fez espirrar leite quente na cara do loiro. Ele se deliciou com a cena, mas se preocupou ternamente em não demonstrar. – Diga-me, coeur, esta vem com uma pílula antidepressiva também?
- Não... Mas temos vodka se você não achar muito cedo para isso - ela parecia refletir sobre o assunto.
- Basta, vou embora – e dizendo isso encarou o horizonte sem se mover. Tom nunca ia embora quando queria.
- É tudo parte do nosso jogo. Vá, pegue uma tigela e se sirva de um pouco de cereal.
- Ridículo. Todos vocês. Não os tolero – Esbravejou fazendo questão de olhar no olho de cada pessoa no recinto. Mas, ironicamente, enquanto dizia isso se sentava e se servia de cereal.
Antes que ele pudesse comer do cereal a garota Larissa se levantou, caminhou até o seu lado da mesa e lhe deu um beijo.
- Uau, eu não esperava essa - Tom, disse incrédulo depois de alguns momentos de silêncio.
- É porque nada aconteceu – a indiferença de sua voz contrastava com a paixão do beijo.
- Tolice. Pois verá agora o que aconteceu. – E dizendo isso foi para cima de Larissa, num beijo que fez os dois caírem no chão juntos. – Gostou do que eu fiz?
- Fui eu que fiz.
- Pois então acho que você só faz o que quer, não?
- É o que se deve fazer no verão, eu temo.
- MEU DEUS, JÁ É VERÃO?! Eu estou realmente atrasado!
- Corra para a casa. – Larissa parecia um pouco desapontada, mas Tom seguiu suas instruções mesmo assim. – Espere! Não se esqueça do cereal.
- É por isso que eu te amo. – Ele disse desejando que realmente tivesse certeza disso e ela respondeu com um sorriso, ainda deitada no chão. Antes de partir de vez o rapaz teve a oportunidade de olhar para trás e ver que a garota-do-sofá sorria para ele aprovando sua decisão.
Tom estava indo para casa, esperava realmente que ela ainda estivesse esperando por ele.

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