Andressa

Andressa atravessa a rua as pressas com seu cabelo preso num prático e esportivo rabo-de-cavalo. Com sua bolsa tiracolo, ela se prepara para mais um período de trabalho. Meio-dia. No balcão do edíficio Santa Luzia, enquanto bate o cartão em um tipo de registradora, que marca a chegada e saída dos funcionários, Andressa pensa na aparente perfeição de sua vida. A menina-mulher pensa na sua rotina: de dia trabalhar no consultório do nutricionista Doutor Alberto, localizado em um edíficio comercial no centro da cidade. A noite ir pra faculdade, curso de Letras.
Ela pensa na sua família, pensa nos comentários de todos os tios. "Você tem que ser como sua tia Marta! Ela sim é uma pessoa admirável. Batalhou pra conseguir fazer faculdade de Letras e hoje tem sua própria universidade." Só que Andressa nunca admirou tia Marta, ela não passava de uma esnobe, ou uma pessoa fechada, ela nunca soube. O fato é que Andressa nunca teve muito contato com sua tia. A mulher nunca ia nos convencionais almoços de domingo, regados de muita macarronada feita por sua avó.
Isso tudo faz despertar uma dúvida em Andressa: ela gostava mesmo de como estava sua vida? Digo, será que era isso que ela queria ser, queria ser a tia Marta? Mas ela já estava conformada a ceder as pressões da família. Desde que ela nasceu o seu destino estava selado nas malditas cabeças de seus familiares que pensam pequeno. Então, se Andressa não fosse tia Marta, o que poderia ter sido da sua vida? Ela seria uma grande jogadora de basquete, como sonhara(in centivada por aulas) até seus 11 anos de idade? O fato é que com sua aplicação ela poderia ser qualquer coisa: advogada, médica, jornalista, e existe os que diriam que ela poderia até ser um astronauta da Nasa. Se ela se esforça por algo não gosta, por que não faria o mesmo por algo que gosta? O fato é que ela era alegremente perfeita a vista de seus pais. A orgulhável Andressa. Um emprego, faculdade de tia Marta (digo, Letras ), não se esquecendo de citar que com um mês de trabalho ela tinha financiado uma moto! O que ninguém sabia é o porquê: ela se sentia livre com o vento batendo na cara, se sentia inabálavel, se sentia satisfeita, feliz.

- Mocinha, você já usou aí? Então ande, está enterrompendo a passagem.
Alí no balcão do Edifício Santa Luzia, a garota desmonta. A menina-mulher Andressa jazia desmaiada ao pé de curiosos, e preocupados que gritavam as pressas para o porteiro chamar a emergência. Outros pediam que todos dessem espaço para a "mocinha" respirar, pediam para que não fizessem tanto barulho, tanta agitação. Nada disso importava mais, Andressa estava agora mais feliz que fora em toda a vida, nada ouvia, nada sentia, nada via. Em sua face descançava uma lágrima.

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